Nem pela direita, nem pela esquerda; caminhemos pelo meio

18

Não há dúvida de que estamos entrando em uma nova fase de nossa história – e não me refiro apenas ao Brasil, mas a praticamente todos os países. No século XX o mundo passou por duas grandes guerras, a detonação das primeiras ogivas nucleares, as guerras das Coreias, do Vietnã, os golpes militares e civis na América Latina, e o mais marcante: a dualidade entre Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Por quase meio século o mundo viu-se dividido entre a proposta capitalista – e posteriormente neoliberal -, encabeçada pelos EUA, e o socialismo, propagado pela URSS. Um terceiro grupo de países, da África e da Ásia, optou por uma terceira via. A França equiparou-se às duas superpotências ao desenvolver seu próprio arsenal nuclear. Havia a expectativa de uma terceira grande guerra – a última, provavelmente. O Muro de Berlim caiu em 1989, e a URSS foi dissolvida em 1991, tendo início uma nova geopolítica.

Curta a nossa página no Facebook

Superadas as dificuldades do século XX, e um temor de um cataclisma mundial na virada do milênio, começamos o século XXI sob a tutela dos EUA. O mundo agora possui apenas um polo de poder, com maior presença e poder de atração do que representou a Europa antes da Segunda Grande Guerra, e a URSS durante sua expansão. Os “atentados terroristas” de 11 de Setembro de 2001 deram início a uma nova fase de caça às bruxas, com seguidas invasões promovidas pelos EUA em países como Afeganistão e Iraque. Objetivo: “combater os terroristas da Al-Qaeda” e “levar à democracia aos bárbaros”. Dos escombros surgiu um grupo ainda mais perigoso e articulado que o grupo criado por Bin Laden: o Estado Islâmico. Prontamente o governo dos EUA forma uma coalizão de países aliados e dá início a bombardeios. Centenas de refugiados entram na Europa via Mar Mediterrâneo.

Até o final de 2015 a Europa já havia recebido mais de 500 mil refugiados. Alemanha, França e Suécia são um dos principais destinos dos que conseguem escapar dos conflitos que assolam seus países e a travessia do Mar Mediterrâneo. Notícias de estupros e ataques terroristas em solo europeu, no entanto, tem levado grupos de extrema-direita a proporem o rompimento com a União Europeia e a expulsão dos estrangeiros. O primeiro a desembarcar foi o Reino Unido, após referendo. Embora ainda não oficializada, a saída do Reino Unido da União Europeia ocorre por uma série de motivos, passando por questões econômicas, de soberania nacional e por um crescente desconforto com a presença de estrangeiros no Reino. Antes e durante a votação do Brexit foram registrados diversos ataques a poloneses e cidadãos de origem árabe. Grupos de extrema-direita da França e Alemanha deram total apoio.

Nos EUA, a polarização entre Democratas e Republicanos dá o tom da nova fase que presenciamos. De um lado, o bilionário Donald Trump busca atrair eleitores com propostas conservadoras e extremistas, com a construção de um muro entre o México e os EUA, e a expulsão de todos os muçulmanos do país. Do outro, a democrata Hillary Clinton representa a continuidade da bem-sucedida política de inclusão de Obama, tendo o apoio de negros, homossexuais, hispânicos e da classe média americana. Ao pedir o apoio da Rússia em sua campanha midiática contra sua adversária democrata, Trump deu um pequeno exemplo do que será a corrida presidencial – caso sua candidatura não seja impugnada pelas autoridades eleitorais. Algo semelhante acontece na América do Sul, com a crescente polarização entre socialistas e oligarquias, com disputas eleitorais apertadas em países como o Brasil.

Segunda maior economia do continente, e a sétima mundial, o Brasil tem recebido maior atenção de políticos, empresários, intelectuais e artistas de inúmeros países. Outrora chamado pelos portugueses de “Terra dos Papagaios”, o Brasil tem sido palco de um conflito ideológico que ultrapassa o ambiente eleitoral, com presença cada vez maior nas ruas e nas redes sociais. Diz-se que o Brasil está dividido ao meio. Paulistas chegaram a propor a construção de um muro para separar o estado de São Paulo do Nordeste. De fato criou-se no país um antagonismo que pode evoluir para uma guerra civil generalizada, com diversos atores envolvidos. É um conflito diferente, cujos protagonistas não são apenas intelectuais e uma classe média insatisfeita, mas também religiosos que veem nas gestões petistas uma ameaça. Silas Malafaia, Marco Feliciano e o mais novo “convertido”, o deputado Jair Bolsonaro, são um dos principais lideres de um movimento em fase de crescimento.

“Que País é Esse”, questiona uma das músicas da banda Legião Urbana. É o país em que somente 5 presidentes eleitos conseguiram completar o mandato nos últimos 90 anos, em que um congresso com ampla maioria dos parlamentares envolvidos com corrupção – e o Eduardo Cunha é o representante maior – afastam uma presidenta com argumentos que até mesmo uma comissão de peritos do Senado não encontrou indícios de culpabilidade. Dilma cometeu inúmeros erros em seu mandato, não conseguiu dar continuidade a política econômica do presidente Lula, embora tenha sido em sua gestão que médicos chegaram à periferia, às regiões mais distantes do Norte e Nordeste, e que empregados domésticos foram equiparados aos demais trabalhadores. Em alguns casos – como na redução da energia elétrica para facilitar a vida de pobres e do empresariado, e que teve o apoio da FIESP – Dilma errou porque acabou por atingir os cofres das estatais e subsidiárias.

Hoje (31) tivemos uma nova onda de manifestações pelo o país, com grupos que apoiam o impeachment da presidente Dilma Rousseff e contrários. Os ânimos ainda não se arrefeceram. Coxinhas e mortandelas ainda estão com os ânimos à flor da pele. Não há dúvida de que tivemos inúmeros episódios de corrupção nos últimos anos – e que não envolve apenas as gestões petistas, mas também tucanas e peemedebistas -, mas também não podemos deixar de registrar que também foi um período em que tivemos um salto na educação, com programas importantes como o FIES, o Prouni, o Ciência sem Fronteiras, o Pronatec, as Universidades Federais – e o ABC, em São Paulo, ganhou dois campus -, as cotas etc. Hoje qualquer um pode cursar um ensino superior, seja ele branco, negro ou indígena. São avanços que temos que reconhecer, como também reconhecemos a estabilização da economia com a criação do Real, pelo sociólogo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

É neste sentido que temos que caminhar, ou seja, reconhecer o que de bom temos em governos distintos, em programas ideológicos distintos. Há aspectos importantes na esquerda, como o combate a desigualdade social, a emancipação da mulher e a universalização da educação; na direita, com a preocupação com a manutenção dos laços familiares e os bons costumes. Igualmente o socialismo praticado em alguns países obteve êxitos, com a inclusão de milhões de pobres na classe média, a erradicação da mortalidade infantil e o analfabetismo; no capitalismo a tecnologia possibilitou que a humanidade passasse a desfrutar de melhores condições de vida. Por outro, é preciso reconhecer alguns erros, como o exacerbado centralismo administrativo proposto pela esquerda, e na direita o apoio a práticas de tortura e o porte de armas. O capitalismo errou ao trazer sérios prejuízos ao meio ambiente.

Dificuldades em reconhecer aspectos positivos e negativos têm levado grupos ao extremismo ideológico, e que em alguns casos evolue para atentados e perseguições. É um erro porque o ideal é caminharmos pelo meio, buscarmos novas alternativas de organização social, que respeitem o direito de expressão e liberdade religiosa, como também liberdade para os mais diversos atores sociais. Vejo como benéfica a existência de antagonismos sociais, mas desde que não evoluam para conflitos físicos e políticos. Devemos dialogar com diversos pensamentos, e não é novidade para ninguém que tenho dialogado com a esquerda e com movimentos progressistas. Apesar de ser progressista, sou conservador em alguns aspectos, e tendo a me considerar um socialdemocrata. Admiro a política de juros baixos dos EUA, embora tenha como modelo de Estado os países escandinavos. Ponto.

18 COMENTÁRIOS

  1. A sua visão da direita está deturpada, em dizer que são torturadores. Não houve tortura maior que as praticadas em solo comunista contra o seu próprio povo. A esquerda nos países socialistas não acabou com a pobreza. Acabou com a riqueza, acabando assim com a tal desigualdade social.

    • É evidente o viés partidário do jornalista que escreveu essa matéria totalmente parcial. O esquerdismo dele é latente e visível ao mais distraído leitor e nos mostra que até nos seios Cristãos, vemos socialistas levantando a bandeira do esquema globalista que mais cresce no mundo, infelizmente, devido a alienação em massa provocada pela mídia ao longo dos últimos 20 anos.

    • É evidente o viés partidário do jornalista que escreveu essa matéria totalmente parcial. O esquerdismo dele é latente e visível ao mais distraído leitor e nos mostra que até nos seios Cristãos, vemos socialistas levantando a bandeira do esquema globalista que mais cresce no mundo, infelizmente, devido a alienação em massa provocada pela mídia ao longo dos últimos 20 anos.

  2. “A direita só tortura comunistas”, enfluenciado em faculdades dominada por esquerdistas como tenho certeza em dizer que o colunista que escreveu esta materia é um simpatizante da esquerda ja mais podera dizer que é um social democrata por dizer um mentira dessa que a esquerda é torturadosres,falta e conhecimento ou dessimulado, o cumunismo é tão perigoso que engana muitos que se diz cristão como o caso desse colunista

    • “A direita só tortura comunistas”, é justamente aí que está a grande contradição. A tortura, Rogério, é uma prática condenada em nossa constituição. Qualquer um que cometa tortura deve ser punido na forma da lei, seja ele direitista ou esquerdista. Além do mais, como conciliar a fé cristã com práticas de tortura? Cristo ou qualquer um de seus apóstolos pregaram tal Evangelho? No artigo acima falo da importância de caminharmos pelo meio, buscarmos o que de melhor há nas diversas correntes de pensamento. Ao mesmo tempo, demonstro os erros e acertos de cada corrente de pensamento e organização social e econômica. É neste sentido que sou socialdemocrata, porque ao mesmo tempo que prezo pela igualdade de direitos, sou um ferrenho defensor da liberdade de expressão e de confissão religiosa. Não é o que presenciamos no Brasil, com programas como o Escola Sem Partido. Em artigo publicado na revista Veja, o organizador do referido movimento deu claros sinais de que o objetivo do projeto é banir o socialismo das escolas públicas. É um erro porque não se deve proibir ou tentar proibir a apresentação de qualquer que seja a corrente de pensamento ou ideologia. Não é dever do professor fazer defesa de partido A ou B, mas ao mesmo tempo não deve ser privado de discutir aspectos do socialismo ou do capitalismo em aula. Escola sem Mordaça.

  3. Johnny Bernardo talvez não conheça o (ex)Mar de Aral, na antiga URSS e os 1/3 de rios poluídos na ex-Alemanha Oriental para dizer que “o capitalismo errou ao trazer sérios prejuízos ao meio ambiente”. Lamentável.

  4. Parabéns pela lucidez, demonstrando conhecimento real dos fatos e da historia. É também um ato de coragem, vindo de um um jornalista que escreve para um publico na maioria cristã. Apontar pontos positivos e negativos nos regimes políticos que ai estão, digo isso, levando em conta que no geral. infelizmente os evangélicos são destituídos de senso crítico; boa parte são reprodutores de discursos dos tele evangelistas (embora reconheça que existam pessoas boas nesse meio). Quanto a “caminhar pelo meio”a questão que penso é que a história nos coloca opções, que fogem das nossas convicções maiores, mas são as que temos que lidar.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here