O Motivo e a motivação humana

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As ações que um ser humano tem, nos seus primeiros anos de vida, são pura e simplesmente direcionadas para a satisfação imediata dos instintos de frio, fome, sede, evitar as dores, evitar luz e ruídos fortes, enfim, todas as sensações momentâneas desagradáveis e procurar, com isso, sensações agradáveis. A criança vai aprendendo pela experiência (não há ainda um motivo intelectual), e elas podem desde já ser chamadas de “cognoscitivas”.

Uma síntese totalmente rudimentar é feita pela criança – o fato de ocorrerem várias experiências. Ela percebe que sua mãe é a representante de uma fonte de prazer, ou seja, de uma grande parte de satisfação de suas necessidades de prazer. Sua mãe não é capaz ainda de saber que esse novo ser é separado dela, que é um ser distinto em si.

Por volta do terceiro mês de vida, a criança começa a perceber o outro – no caso, sua mãe – e que o comportamento dessa mãe depende, em parte, do seu próprio comportamento, começando então a adequação à vida materna. Isso é um motivo por si mesmo. Nessa fase, a mãe já vai se opondo gradativamente à satisfação das necessidades da criança.

Por ocasião da desmama e da aquisição de hábitos higiênicos, e por ocasião das proibições feitas pela mãe, ocorre um fenômeno de escolha. A criança deverá escolher entre conservar o amor materno ou os hábitos infantis. Essa é a primeira transição importante no desenvolvimento infantil. Esse é o primeiro fenômeno ao qual devemos dar total atenção, pois dele depende o desenvolvimento sadio da criança.

Segundo Melaine Klein, no nascimento já existe ego suficiente para a criança experimentar ansiedade. O bebê já utiliza mecanismos de defesa e, nesse processo, nessa dinâmica, já se formam as relações de objeto, primitivas na fantasia e na realidade.

Freud chama essa fase de ego primitivo: ele descreve também um mecanismo de defesa primitivo, isto é, um instinto de morte. O ego do bebê já é capaz de formar uma relação de objeto de fantasia, que pode ser boa, mas também má, dependendo da relação com a mãe (e/ou figura materna).

O ego primitivo nos primeiros meses não é como o de uma criança de seis meses, por exemplo, ou de uma criança já em desenvolvimento.

Inicialmente, o ego primitivo é amplamente desorganizado, embora, de acordo com toda tendência do crescimento fisiológico e psicológico, ele possua uma tendência à integração desde o começo.

O bebê já possui ansiedade, que é provocada pela polaridade inata dos instintos (conflito interno de vida x morte) e a exposição impactante da realidade externa (por exemplo, trauma de nascimento) que lhe dá vida, calor, amor, alimentação, projeção, em parte conversão do instinto de morte em agressividade. Esse conflito psíquico que ocorre com os bebês é necessário, e aí se dá o começo das relações objetais.

Assim é estabelecida uma relação com o objeto ideal.

Por isso a fase inicial do desenvolvimento é muito importante para o futuro emocional e de formação da personalidade dessa criança. A mãe, ou quem estiver fazendo o papel de mãe, tem uma função primordial nesse processo, pois é desta relação que se formarão o caráter, as afeições, as relações desse ser com o mundo.

A mãe tem de desenvolver com amor e muito carinho certa disciplina para ser empregada nessa relação. Por exemplo, a adequação do ato de amamentar e/ou dar mamadeira tem de ser disciplinada em horários – de duas em duas horas, ou de três em três horas (prazo estipulado pelo médico pediatra) e em local tranquilo, sem pressões externas ou estímulos desagradáveis.

A mãe tem de dedicar esse momento somente àquele pequeno ser. Mas a disciplina, o controle, já podem e deverão ser exercidos. Não pode a mãe, a cada “resmungo” do filho, achar que tem de dar o seio ou a mamadeira, pois até mesmo gratificação em excesso prejudica a afetividade da criança, prejudica a evolução de seus afetos, logo, desestrutura o seu pequeno ego, que precisa do equilíbrio, de gratificação e frustração.

O texto da Bíblia, em Hebreus 12.11, é bastante oportuno para este momento: “Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça”.

“O equilíbrio é fundamental para o desenvolvimento de seu filho. Você tem sido equilibrado em suas ações e funções?”

Todos os bebês têm períodos de ansiedade, e são as ansiedades e defesas que constituem o núcleo da posição esquizoparanóide.

São parte normal do desenvolvimento humano”,  diz Melaine Klein. Nenhuma experiência no desenvolvimento humano é colocada de lado. O ser humano pode passar por situações hoje em sua vida que despertarão as mais primitivas ansiedades e que colocarão os mais primitivos mecanismos de defesa em ação, numa personalidade bem integrada. Todos os estágios do desenvolvimento estão incluídos.

Nenhum estágio de desenvolvimento é rejeitado. A base do ser humano se constrói nos primeiros meses de vida. Todos esses eventos, realizações, são realmente importantes para o desenvolvimento posterior, onde têm seu papel na mais madura e integrada das personalidades.

Sendo assim, o bebê passa por várias posições e estágios de desenvolvimento. Essas posições, quando passadas gradualmente uma para outra, sem violência, sem intempéries, de forma suave, vão construindo um ser humano capaz de distinguir interna e externamente, o que é bom (bem) e o que é mau (mal).

“Como aprendemos, depende muito de vocês, pai e mãe, o que seu filho entenderá como bem e mal no futuro.”

 

Este artigo faz parte do Livro Como fazer de seu Filho uma Criança Feliz – Os segredos dos afetos infantis – de Marisa Lobo – Arte Editorial.

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Marisa Lobo é psicóloga clínica, escritora, pós-graduada em saúde mental, conferencista realiza palestras pelo Brasil sobre prevenção e enfrentamento ás drogas, e toda forma de bullying, transtornos psicológicos, sexualidade da familia, entre outros assuntos. Teóloga, ela é promoter e organizadora da ExpoCristo realizada no Paraná. Marisa é casada, tem dois filhos e congrega na IBB em Curitiba.

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