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É importante lembrar: tristeza não é depressão e faz parte da vida humana

É importante lembrar: tristeza não é depressão e faz parte da vida humana

Foto: reprodução/Luis Galvez/Unsplash

Que a depressão é a “doença do século”, muitos já sabem. No entanto, devemos tomar muito cuidado quando falamos sobre o assunto, uma vez que dependendo da forma como nos comunicamos e divulgamos informações, o risco de transformar rótulos em diagnósticos é muito grande.

Por essa razão, o meu objetivo no artigo de hoje é alertar sobre o risco de tratarmos a tristeza comum como depressão, algo que já vem sendo debatido na comunidade acadêmica e trazido à tona por alguns autores.

Afinal, será que não estamos patologizando o sofrimento humano em sua forma natural? Mas, o que seria esse “natural”?

Desde já, explico que não vamos conceituar aqui o que é ou não depressão. Esse não é o propósito. Em vez disso, focaremos no que podemos chamar de sofrimento natural, ou tristeza comum, elementos que fazem parte da vida de todo ser humano, mas que ao longo das últimas décadas parece estar sendo esquecido como parte da nossa experiência.

Tristeza não é depressão

O ser humano é por natureza uma criatura emotiva. Isto significa que felicidade ou tristeza, ansiedade, angústia ou raiva, euforia ou apatia, são versões de nós mesmos, mas em diferentes situações e por diferentes motivos.

É possível que alguns desses sentimentos (alguns apenas sensações) se apresentem mais do que outros, assim como por tempos diversos.

Muito embora a tristeza seja uma das características da depressão, ela também é parte constituinte das emoções de um ser humano mental e emocionalmente saudável, porque é isso o que também nos permite desenvolver bons relacionamentos.

Já pensou como seria, por exemplo, conviver com alguém incapaz de se sentir triste por qualquer motivo, mesmo diante da morte, uma grave enfermidade, de uma demissão, o fim de um namoro, casamento ou pelo simples fato de não conseguir aprovação numa prova de vestibular?

Nessas e em outras circunstâncias, portanto, sentimentos como a tristeza servem para nós como indicadores da nossa própria humanidade, sendo esse o sofrimento natural. É quando reconhecemos o que nos faz mal, prejudica e nos preocupa.

E a importância disso é enorme, porque é só através dessas experiências que podemos desenvolver algumas habilidades, como a capacidade de perdoar e pedir perdão.

Uma das diferenças entre o sofrimento natural e o patológico, neste sentido, está na sua especificidade. A tristeza comum geralmente possui duas características básicas: causa e prazo de validade. Você se sente triste por “isso” ou “àquilo”, entende?

Quando esses elementos são identificados e solucionados, a tristeza também tende a desaparecer.

Não podemos, contudo, determinar prazos para isso acontecer, nem mesmo causas, pois existem as particularidades de cada indivíduo, e é aqui onde costumamos ver a dificuldade de reconhecer o que é tristeza comum ou depressão.

Um profissional experiente e devidamente capacitado, no entanto, saberá enxergar essa diferença, muitas vezes apenas através de acompanhamento.

A patologização mascara conflitos

Quando a tristeza comum é patologizada, ou seja, tratada como um tipo de doença que não é, o maior risco envolvido nisso é o acobertamento dos reais problemas causadores desse sofrimento, e aí o que até então seria natural pode vir a se tornar realmente um gatilho para o surgimento de problemas maiores.

Isso tem acontecido muito no mundo atual, porque vivemos numa geração que, por incrível que pareça, se conhece cada vez menos. É o resultado de uma sociedade que vive bastante em função do virtual, e que também é vítima de uma desconstrução em massa de valores que sempre foram os pilares da cultura.

A fragilização desses valores somada aos conflitos de identidade tem criado pessoas confusas, onde muitas vezes a tristeza é mascarada com rótulos, diagnósticos, atrativos (como o próprio universo virtual) e narrativas que visam impedir essas pessoas de se depararem com as reais causas dos seus problemas.

A tristeza, desse modo, até então natural, é envelopada e calcificada por uma massa de várias outras coisas que vão se acumulando e lhe mascarando. No entanto, ela continua lá, existindo, mas como não é reconhecida e tratada como tal, acaba produzindo outros sintomas, tais como ansiedade e angústia.

Portanto, saber reconhecer que a tristeza faz parte da vida humana, devendo ser encarada como um tipo de sofrimento natural e não patológico, é fundamental para que outros problemas, como a própria depressão, não passem a existir.

Leve isso em consideração sempre que possível e busque, em Deus, a sabedoria para discernir cada coisa.

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